Desistência

Neblina no Vale da Morte

Ando meio desesperançoso. Sei pouco do que me conduz a esse sentimento, ou nem sei, são suposições. Mas, fato posto, ando meio desesperançoso.

Faço cada vez mais reflexões acerca de mim mesmo, o que sou, em que estou me transformando, ou o que há no fim do caminho para o qual me direciono. Nesse caminho, uma coisa é certa: cansei de tentar entender o ser humano, em sua grande maioria esse indivíduo não merece mais tentativas de explicação.

Será que é isso? Abandonar cada vez mais pessoas ao meu redor? Mergulhar definitivamente no meu mundo particular, cheio de tipos saídos de filmes do Burton, ou do Leone, ou então do Terry Gillian? Ou então saídos de livros do Júlio Verne, do Alexandre Dumas, do Woody Allen?

Também ando em um momento em que não quero perder tempo com coisas pequenas, quero saber mais, quero saber onde tem mais, aqui é muito pouco. Culpa do Sagan, da semente de curiosidade que ele me colocou na mente.

Por outro lado, pareço ter voltado definitivamente ao convívio dos pouquíssimos amigos de uma vida inteira, aqueles com os quais aprendi a falar, escrever, aqueles que foram parte da minha própria construção. Levei quase trinta anos para me sentir à vontade, sou assim mesmo, lento. São esses os amigos verdadeiros, aqueles que respeitam a minha opinião de verdade, mesmo que seja antagônica à deles. Voltei à amizade pura, sem cobranças, segundas intenções, sem a eleição de sacos de pancada psicológicos. Eles não me fazem sentir melhor ou pior, e sim igual a eles.

Essa mistura de percepções e sentimentos me leva a lugares inóspitos de minha própria imaginação.

GRE -NAL – Clássico é clássico e vice-versa

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(“This is the last time”, caraca de mulher que não sai da minha cabeça) – Eu tenho a mania de dizer que a estupidez humana não é para principiantes. Não devia banalizar as coisas, eu acho errado condenar preconceituosamente a maioria por coisas protagonizadas por um ou outro babaca. Mas às vezes a impressão que eu tenho é que realmente o mundo vai ser dominado pelos idiotas.

Abandonei o futebol faz uns anos, uns dois acho. Desisti depois de constatar que os dirigentes do clube para o qual eu torcia comandavam o clube mais por vaidade e para marcar território. Era e ainda é, uma questão de glamour, de holofotes e afirmação social. Se der tempo eles pensam no time. Some-se isso ao fato de que o futebol no meu caso, só me causou despesas. Pensei: Por quê não gastar dinheiro em outras coisas mais prazerosas e significativas? Por algo que acrescente de fato algum valor? Tratei de ir me ocupar de outros assuntos. Mas parece que enquanto alguns olham de uma maneira mais pacata para essa questão do futebol, outros querem brigar, bater e morrer por isto.

Dia quatro de março eu tinha aula, esse semestre por umas questões delicadas não tenho aulas todos os dias, mas as quartas feiras são dias de aula na faculdade. Nessa em questão tinha jogo do Internacional (eu torcia para o Grêmio) em um dos campeonatos nacionais. Estava eu em aula e perto do intervalo um colega torcedor do Internacional me questionou se eu sabia como estava o placar. Respondi que não, mas percebi um ar de ansiedade nele, fiquei com pena do cara, e já que tinha me feito uns dois ou três bons favores semestre passado, optei por tentar ajudá-lo. Pensei: “Vou ligar para o setor de Operação lá do serviço”. Na operação são monitorados todos os sistemas da minha empresa, vinte e quatro horas por dia. O pessoal tem acesso direto a Internet, então se não houver quem esteja acompanhando a partida, pode pesquisar rapidamente e ter o resultado. Fiz a ligação e ela caiu em um colega de serviço que vou aqui chamar de “fundamentalista”. Disse boa noite, me identifiquei e perguntei se tudo estava bem. Logo perguntei também se ele poderia me responder o placar. Esse cara é conhecido na minha empresa por ter verdadeira obsessão pelo Internacional. Ele comentou “tu está ligando para me aborrecer e atucanar”. Respondi que estava tentando prestar uma gentileza a um colega de aula e que ele não precisava se aborrecer era só responder que eu desligaria. O cara se recusou e foi um bocado ríspido. Bom, eu comentei algo que não lembro e desliguei. Disse para meu colega de aula que não tinha conseguido.

Um dia depois, na quinta feira, estou eu online por volta das 23:30 quando esse meu colega de serviço me contata pelo Messenger com algo nesse teor: “Sem vergonha secador, agora eu te digo quanto foi o jogo, meu time ganhou, não adiantou tu me incomodar”. Eu comentei, “Fundamentalista, hoje não precisa mais, precisava saber ontem, era para o meu colega de aula”. Fundamentalista continuou: “Quer que eu acredite?” Eu ainda tentei argumentar que era inacreditável uma pessoa colocar um relacionamento cordial por água abaixo em função de uma coisa tão sem valor quanto discussão por futebol. Fundamentalista ainda argumentou: “Não interessa, paciência. Meu time é mais importante”. E ele estava brabo, isso em si não me preocupou. Tentei entender o cara, mas simplesmente bloqueei o Messenger dele e depois deletei.

Nunca mais quero contato.

Esse tipo de ser humano é o responsável por brigas em estádios. Em algumas vezes tragédias. Será que futebol vale tanto amor assim? Ou será que é um misto de amor com paixão imbecilizante? Meu colega de serviço foi imbecilizado pelo futebol, quer dizer, se deixou imbecilizar. Sorte que eu só preciso de contato profissional com ele.

Aconteceu em uma grande empresa de Internet no Brasil – Parte 2

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Aquela situação imaginária ainda não saiu da cabeça criativa do autor. A conversa imaginária com a pessoa mais imaginária ainda no RH também não sai da cabeça dele. Veja leitor, que muitas das pessoas imaginárias que souberam do assunto comentaram que o evento sequer devia chegar aos ouvidos do autor. Perceba o que qualquer pessoa com bom senso e um mínimo de juízo não faria tamanho barulho por duas garrafas de uísque. Simplesmente porque primeiro não guardou em lugar devidamente seguro, segundo pelo valor aparentemente insignificante dos artefatos que sumiram.

Não dá para esquecer que os suspeitos do sumiço foram tratados como eram tratados prisioneiros da Gestapo do Departamento A2. A funcionária imaginária do RH tem garras poderosas escondidas sob unhas bem cuidadas, e estão prontas a dilacerar a alma de quem não confessar crimes que não cometeu.

As curiosidades do caso: Um funcionário da empresa de vigilância logo após o evento, pediu para trocar de posto e ir fazer vigilância em outra empresa. Segundo consta no imaginário do pessoal (imaginário) que convivia com ele, em seu turno algumas outras coisas desapareceram, e viram ele vendendo uma garrafa de uísque na rua ao lado. Nem assim ele pode ser acusado de nada. E o autor que nunca fez nada de errado e nem foi visto fazendo, deveria ser acusado? Outra coisa engraçada, fruto da imaginação fértil do autor: A mesma pessoa no RH que insinuou ao autor que ele era sem-vergonha por usar táxi fora de hora às custas da empresa, é vista mais de uma vez em seu turno de trabalho, tomando banho de sol em um famoso clube da cidade cercada de todos os brindes que a empresa distribui para assinantes. Vamos adaptar o ditado popular: “Pregou moral de calcinha, e para a pessoa errada”.

Não se trata mais de reclamar que estamos em um mundo (imaginário) perdido. Não se trata mais de revisar valores e sim de encontrá-los em meio a uma parcela da sociedade que perdeu o rumo de maneira aparentemente definitiva. Uma parcela que dá valor à aparência, à politicagem barata, ao culto à falta de personalidade.