Aconteceu em uma grande empresa de Internet no Brasil

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A história escrita a seguir é fruto da imaginação do autor. Um devaneio como ele mesmo costuma chamar essas coisas. Todas as semelhanças com fatos e pessoas reais, são, portanto, mera coincidência.

Imagine caro leitor, que você trabalhe desde sempre em uma grande empresa multinacional. Desde sempre pode ser caracterizar um tremendo exagero, mas não o é. O esforço, o desgaste, a luta para fazer bem o seu trabalho requer mais que oito horas diárias de dedicação e isso lhe dá o direito de pensar que trabalha á bem mais de sete anos nessa empresa. Pense que você não trabalha em um lugar comum, desses que basta cumprir sua função e receber seu salário no final do mês. Perceba que o lugar onde você investe seu horário comercial e muito mais, não pode “parar”. Por que não pode parar? Porque esse lugar é uma empresa de Internet, e seus serviços são vendidos sob a premissa de estarem sempre à disposição dos clientes, em todos os dias, em todas as horas.


Agora junte alguns fatos. Um é que essa empresa de Internet não possa parar. Dois é que você trabalha justamente na área que segura tudo isso no ar. O resultado é que você tem que acumular muitas horas de trabalho para ter certeza de que tudo está funcionando satisfatoriamente. Três é que caso alguma coisa saia do seu controle e dê errado, não vão faltar dedos para lhe apontar. Quatro é que às vezes os colegas da empresa vivem e se relacionam lhe dando a impressão de viverem muito mais por aparência do que por qualquer outra coisa.

A mistura de tudo isso resulta no que você imagina ser uma grande fogueira de vaidades. Muitas das pessoas que trabalham nessa empresa, você se pergunta, o que estão fazendo nas suas funções? As atitudes delas de maneira alguma correspondem ao que deveriam.


Você não tem o direito de fazer nada a não ser a sua parte e ser proativo em relação aos problemas que possam ocorrer.

Você vai acumulando anos de sapos deslizando goela abaixo, afinal, você precisa, existem compromissos assumidos em relação à sua família, seu salário e benefícios permitem que você proporcione algum conforto e segurança para seus entes queridos. Conforto e segurança esses, repito, conquistados à custa de trabalho e esforço.

Imagine que você não pode desligar seu celular corporativo em nenhum momento. Você não tira férias, você descansa alguns dias quando dá. Você deve estar sempre à disposição, aconteça o que acontecer.

Imagine que tudo isso descrito acima não lhe perturbe, que você considere normal e plenamente tranqüilo trabalhar dessa maneira e que você sempre está motivado a fazer bem seu trabalho.


Aí um belo dia o RH da sua empresa dá falta de duas garrafas de uísque das cestas de natal do ano anterior que foram guardadas em algum lugar que tinha espaço. Você e seus colegas de setor tiveram acesso a essa sala para resolver um problema. O RH trata esse problema concluindo que foi roubo e que você e seus colegas são suspeitos. O RH na pessoa da responsável no escritório e que também estava responsável por essas cestas, faz um inquérito, lhe chama na frente de seu chefe e insinua de maneira a beirar o irresponsável, que lhe entregou cópia das chaves da sala e que se você não lembra disso, sua atitude é ainda mais suspeita. Ela tem uma técnica: Fica insistindo várias, várias e várias vezes que lhe entregou as chaves, mas são tantas, tão inúmeras as vezes, que você acaba pensando: “Será que eu não peguei mesmo?”. Você não tem direito de dizer duas coisas, que não pegou ou que não se lembra, a voracidade dessa pessoa em lhe incriminar, ou achar alguém para incriminar é tão intensa que você se sente constrangido na frente do seu chefe. Após sair dessa conversa amigável seu chefe ainda se diz magoado com você, pois você havia dito que não havia recebido chaves dessa sala, e após sucumbir à lavagem cerebral do RH já acredita que pode ter pego elas. O RH na conversa mistura um pouco assuntos delicados e que nada tem a ver com a questão, e na tentativa  insana de lhe constranger mais, para arrancar uma confissão que é impossível, afinal você não se declarou culpado porque você não tem nada a ver com a situação, cita fatos como uso indevido de benefícios (táxi fora de hora) em algumas ocasiões, como se isso fosse um atestado de mau-caráter que revelasse seu dna de “fora-da-lei”, e portanto candidatíssimo a ladrão de uísque.


Bom, você imagina: Essa pessoa deve no fundo saber o que está fazendo, pois é pessoa chave no RH da sua empresa. Tanto quanto você, ela deve ter uma extensa folha de bons serviços prestados à corporação. Ela cuida de assuntos importantes, como por exemplo benefícios que a lei obriga a empresa a pagar a determinados funcionários, mas que infelizmente “por estar muito atarefada” ficaram mais de um ano na gaveta. Ela cuida de assuntos importantes, como por exemplo cursos de segurança obrigatórios cuja documentação está há mais de seis meses em cima de sua mesa esperando que dê prosseguimento, mas que foram “esquecidos devido a correria”. Ela deve ser uma pessoa tão séria e comprometida quanto você, e o fato da empresa de engenharia de segurança do trabalho do mesmo grupo da sua empresa ter feito laudo dizendo que você tem direito a salário adicional em função da natureza da sua função, passou desapercebido por ela. Imagine que faz dois anos que esse “detalhe” passa diariamente desapercebido por ela. Imagine que em dez vezes que você vai ao RH pegar algum documento ou benefício e ela está sozinha lá, em nove ocasiões ela diz que infelizmente não pode levantar da cadeira e lhe ajudar.


Bom ela é certamente uma pessoa de muita competência e você ainda não percebeu seu trabalho por ser preconceituoso ou então porque ela é eficiente mas discretíssima. Curiosamente no momento em que alguma coisa sob a sua responsabilidade desaparece, é feito um escândalo silencioso, envolvendo você e mais pessoas honestas, afinal ela precisa arrumar um incauto para não passar por desleixada, ou então para deixar um pouco de lado a imagem de pessoa discreta, afinal quem não é visto, não é lembrado (ditado político-popular antigo).


Ela deve ter um raciocínio aguçado, que você leitor, na sua triste ignorância, ainda não conseguiu perceber. Como ela pode ligar você, alguém com uma posição dentro da empresa que não é exatamente pequena, com anos de trabalho duro, respeitado, pai de dois filhos e portanto na obrigação de ser exemplar, com o sumiço de duas garrafas de uísque?


Esse raciocínio sagaz, esse faro para encontrar o culpado, essa ânsia pela verdade e manutenção dos bons costumes corporativos é que são os verdadeiros culpados, culpados por você não dormir direito, por se sentir humilhado, por ter certeza de que ela “à boca pequena” espalhou suas rápidas conclusões a seu respeito dento da empresa. Eles são os culpados, culpados por você não conseguir olhar direito para sua mulher e filhos, por andar de cabeça baixa e evitar os corredores da empresa.


Em nome da verdade, mas principalmente em nome de duas garrafas de uísque vale tudo, até acusar pessoas honestas de roubo. Em nome da verdade, seja ela qual for desde que se arrume um culpado, vale tudo, inclusive humilhar publicamente os funcionários. Você sempre imaginou que as pessoas que trabalham em RH tivessem um perfil humanitário, que fosse ancorado nos princípios básicos de respeito ao ser humano. Mas você está errado, no mundo de hoje as coisas são selvagens e essa pessoa decerto está apenas cumprindo o que se espera dela. Sua vida não vai ser mais a mesma depois disso, mas isso é detalhe.


Ainda bem que tudo isso é apenas fruto da sua imaginação.

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7 comentários sobre “Aconteceu em uma grande empresa de Internet no Brasil

  1. … e que imaginação (será?) hein!
    belo texto… para essa pessoa só se deve usar o desprezo vai por mim não merece nem oi, ignorar é a melhor coisa que se faz, não perca seu tempo tentando dialogar com um cérebro mais inferior que de um macaco, um dia há de mudar!

  2. Sendo o texto coincidencia ou imaginação, ele reflete a indignação de uma pessoa que foi humilhada e que seus principios de carater, dignidade e ética foram pisados.
    Muitas vezes procuramos buscar o melhor profissionalmente e esbarramos em situações como esta que te desvalorizam como homem e como ser humano.
    Concordo plenamente que pessoas como estas deverão ser desprezadas e ignoradas, mas numa coisa acredito, aqui se faz; aqui se paga.

  3. Acho que ignorar as pessoas pode ser uma boa estratégia quando você não tem muito a perder. Mas se esta pessoa imaginária tem anos de serviços (muito bem) prestados, credibilidade, confiabilidade – o que significa uma posição sólida, deve trazer o assunto explicitamente à luz. Quem acusa deve ter o ônus da prova e se não o fizer que se retrate publicamente. Pessoa nenhuma deve ter comportamento inconsequente e isso ficar por isso mesmo, principalmente quanto o custo disso é andar de cabeça baixa, quase assumindo culpa de um sujeira que não foi cometida, algo que fere o coração e os espírito de quem preza por andar em linha reta. Hoje podem ser duas garrafas de Uísque, amanhã poderá ser o que? Isso não é ser vingativo, não é ter ressentimento, é simplesmente justo.
    Mas claro, que se pese a medida dos atos.

  4. Cara, uma vez sumiu uma nota fiscal e uma concursada (sou terceirizada) me acusou em alto e bom som, disse que eu perdi ou rasguei, falava alto para o meu supervisor “com certeza perdeu ou até rasgou…” enquanto eu me lembrava de dias antes entregar o documento na mão da filha da puta. Daí fui até o supervisor e disse: Tenho certeza que entreguei a nota fiscal nas mãos dela e ponto final e ela disse que era mentira. isso foi às 11 e meia, fui almoçar. Quando voltei ele me chamou e disse que encontrou os documentos nas coisas dela e eu não ouvi um pedido de desculpas até hj…
    e isso foi só uma coisa…vivo vendo os concursados fazendo merda e culpando os terceirizados na cara de pau!!!

    bjs!!

  5. Karakaaaa… este texto é tão cheio de detalhes que me recuso a creditar que é ficção….. esse pessoal do RH eh phoda* (* do latim, “fodus”: meter nos outros) hahhah

  6. Este texto é plenamente feliz versando com extremo senso de realidade a respeito de mais um exemplo infeliz do mundo corporativo, onde não somos o que somos, mas sim o que devemos ser . ..lugar este que – em nome da megalomania e do falso glamour – transforma seres humanos em apenas colaboradores. Dentro outros textos sobre a glamorosa podridão corporativa, podemos encontrar um bom texto sobre os nossos queridos RH em: http://causoscorporativos.blogspot.com/2008/12/lu-analista-de-recrutamento.html

    Abç,

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