Uma receita pós sexta-feira Santa.

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Felizmente acabou o martírio de esperar a sexta feira Santa e comer peixe! Para mim, o ano se divide em duas partes: esperar a sexta feira santa chegar e depois rezar para ela passar rapidamente, de preferência em vinte e quatro horas, nenhum minuto sequer a mais. Resolvi curtir o sábado comendo alguma coisa decente, afinal de contas, também tenho meus direitos gastronômicos. Depois de pensar calmamente em que cozinhar ao mesmo tempo que eu caminhava pelo teto de casa em círculos batendo um sundae na testa, resolvi fazer algo simples e suculento: Farofa de jerimum. Opa! Não estamos na época de jerimum. Como não curto cozinhar mesmo é melhor fazer outra coisa, quem sabe um frango assado com creme de cebola e suco de laranja, coisa simples, três ingredientes e nenhum trabalho. Ummm, não tenho laranjas em casa e nem muito menos creme de cebola então vamos ao supermercado em busca desses ítens cruciais para a minha felicidade estomacal pós-peixe podrão. Pois é, sábado de feriadão, o super deve ter menos gente que em marte, em dois minutos chego, vou às prateleiras certas, pego o que preciso, pago e dou o pira pra casa. Chego na esquina e vejo um amontoado de gente doida: ”deve ter acontecido um acidente, que azar desse pessoal, bem no feriadão, bom paciência, cada um com seus problemas”, penso com meus botões. Meu Deus do céu, acidente nada, tem gente se tapeando pra entrar na merda do supermercado, que situação, ele está infestado de gente. Uma vez de posse da senha 345 esperei minha vez de entrar, afinal o que é uma filazinha de nada perto de um legítimo sábado de gourmand, me deliciando, enchendo a moringa? Três horas depois eu entrei na porra do super, um pouco impaciente, talvez tenha exagerado ao mastigar o cartão com a senha. Vou direto na parte das frutas e vejo duas velhas e um anão brigando pelas últimas duas laranjas e o anão está levando alguma vantagem no confronto. Não fiquei na fila por nada e apesar de ser uma pessoa tolerante e extremamente equilibrada acabei mordendo o braço do anão pra ele soltar daquelas frutas. Elas não estavam exatamente cheirosas e após uma avaliação um pouco mais cuidadosa, decidi que as levaria somente para atirar na primeira carreata do PSDB que passar debaixo da minha janela. Bom, a solução é levar suco em caixa mesmo, foda-se, não vai ser isso a estragar a minha receita. Peguei rapidamente o creme de cebola e o suco encaixotado e fui ao caixa, que deveria ter mais ou menos 50 pessoas na minha frente. Após mais ou menos umas 4 horas tem somente uma das velhas que apanhou do anão na minha frente. A caixa informa o valor 14 vezes, sempre aumentando o tom da voz para a criatura. Ela retruca o valor dos guardanapos, dizendo que na prateleira está um centavo mais barato e manda chamar o gerente do estabelecimento, que manca fortemente de uma perna e é gago. Eles se entendem após mais ou menos 50 minutos, no que diz respeito ao nome de cada um. Já fazia umas nove horas que eu estava ali, então me descontrolei um pouco emparelhei o pessoal com adjetivos pouco atraentes. Fui escorraçado por todos, que me chamaram de não civilizado e sóciopata, até parece que eles podem ter razão, esse amontoado de gente feia, inútil e que me dá nojo. Com as compras feitas fui para a minha casa, estou com muita fome então é melhor eu não me enrolar na cozinha. Peguei os pedaços de frango, um refratário, abri a caixa de suco de laranja e peguei o envelope de creme de cebola, para empanar a carne. O envelope resistiu um bocado apesar de ter aquela marquinha para abrir sem tesoura, inclusive quebrando um dos meus dentes. Emprestei a minha coleção de 23 tesouras para o vizinho e ele foi passar o feriadão na Tasmânia, dificultando um pouco a devolução delas antes de segunda feira. Peguei o alicate universal e fui a luta, mas lá pela quinta tentativa cortei todos os dedos da mão esquerda. Menos mal que abri essa merda de envelope. Não vou dar muita bola para esse ingrediente de última hora na minha receita – meio litro de sangue -. Montado o prato, vamos colocá-lo no forno e começar a brincadeira. Quer dizer, tentar começar, pois o gás acabou, acho eu. E bem na hora que queimou a luz da cozinha. Fui procurar mais fósforos para tentar acender uma vela e procurar lâmpadas. Ummm risquei um fósforo bem na hora que sinto um forte cheiro de gás… ele não acabou… Beleza era só um problema com o botão do fogão, levei o fósforo em direção ao forno e quando abri a porta vi um clarão seguido de um forte estrondo. Quando acordo estou todo enfaixado no pronto socorro e vejo ao longe um médico dizendo alguma coisa e a minha mãe se virando aos prantos e abraçando meu pai. Será que eles também não gostam de peixe na sexta-feira santa?

 

Sgt Barnes…2.0

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Bom novamente estou no pedaço, ou então aos pedaços. Passei um tempo de molho no hospital. Esses dias acordei de madrugada com dor demais no peito, ombros, pescoço e braço esquerdo, esse juntamente com uma sensação de que ele pegava fogo. Eram duas da manhã, resmunguei um pouco, hesitei muito, mas a patroa me convenceu a ir à emergência de um hospital aqui da cidade. Fui à luta então, mesmo não gostando nem um pouco de hospitais nem tampouco daquilo tudo que tem dentro deles, inclusive os médicos. Quando cheguei lá, a dor já havia aliviado um bocado, o suficiente para eu achar que tudo não se passava de alguma dor muscular boba. Nesse momento me peguei pensando em agir como sempre, ou seja: “não estou morrendo? Então outra hora eu vejo melhor, afinal, preciso estar no trabalho cedo”. Nessa hora acho que o meu anjo da guarda, cansado das horas extras dos últimos anos, tentou me dar um ultimato. Pensei: ”Poxa vida, já estou aqui dentro, tem um atendente me chamando, nenhuma fila, vou ver que porcaria é essa que eu tenho, pois o ambiente está propício para isso”. Tentei narrar da melhor maneira o que eu estava sentindo, pois precisão na hora de passar informações significa melhor possibilidade de êxito em alcançar os objetivos. Eu estava calmo, o simpático atendente me pereceu também, porém fez uma cara um pouco tensa e chamou a enfermagem. Fui encaminhado para uma salinha simpática com duas moças, que perguntaram mais uma vez meus sintomas. Não gostei muito de repetir, mas o fiz. Mediram meus sinais vitais com semblantes sérios e depois fui encaminhado para uma sala de estar com aparelhos esquisitos. Dois médicos, uma jovem e um gringo falando portunhol também queriam saber meus sintomas. Disse novamente, já meio brabo, o que estava sentindo, e para o último tive vontade de falar em espanhol,imaginei que se ele conversasse em seu idioma nativo seria mais fácil de eu o entender. Bom, não precisei, fui então encaminhado para um eletrocardiograma. Uma atendente me passou umas substancia gelatinosa acima dos calcanhares, nos pulsos e no peito e grudou umas ventosas. Uma impressora matricial desenhou o que seria o gráfico do que estava fazendo meu coração. Alguns minutos se passaram e ela retirou tudo entregou o gráfico impresso ao médico gringo que veio comentar o que ele achava da situação. Disse: “Seu eletro apresentou variações preocupantes, vamos colher sangue para alguns exames, enquanto isso você vai ficar na CTI da emergência, pode ser que você tenha infartado. Fui para essa área do hospital em uma cadeira de rodas com a mente fixa nos dois delinqüentes que eu tenho em casa, uma com quatro anos e o outro com um. Não sei por que, esqueci de tudo mais que existia no mundo e só os lembrava. Tive que me despir completamente, colocar uma roupa que mostra meu traseiro gordo, e morri de vergonha. Colocaram uma mocinha para retirar meu sangue, ela errou duas vezes em cada braço, afirmou que minhas veias eram muito difíceis e chamou uma corôa. Eu não quis entrar no mérito com ela dizendo que era doador habitual de sangue, pois como já comentei, pensava muito nos meus filhos. Fiquei lá umas 12 horas, com sangue sendo colhido várias vezes e o eletro repetido outras tantas. Tomei trocentos remédios e injeções enquanto os médicos discutiam o resultado dos exames. Me chamou a atenção durante essa estadia na cti da emergência, um médico que acho eu, estava cobrindo o almoço de outro. Ele veio falar comigo sorrindo e dizendo que pela vasta experiência que tinha, eu realmente tinha tido um infarto, teria seqüelas e vida limitada. Até aí tudo ok, eu estava calmo e no controle das minhas emoções, mas o jeito dele falar, juro, me deu vontade de enforcar ele com um dos cabos que estava fixado no meu peito, e eu tinha suficiente saúde para isso. Não dei bola para as declarações daquele imbecil, até minha esposa finalmente entrar para me ver. Eu lá numa cama de cti, ela chorosa me olhando e aí comecei a entender a zebra que havia dado comigo. Dei algumas instruções para ela a respeito de seguro de vida e dinheiro, onde aplicar e cuidar bem das crias. Ela começou a chorar, que saco, assim ela não ia prestar atenção. As coisas começaram a ficar claras, se o babaca do médico estivesse com razão eu podia muito bem não ver mais os diabinhos, isso sim, aí eu fiquei choroso. Impressionante, eles incomodam o dia inteiro e fico alucinado com isso. Quando tiro um dia no hospital, sinto falta imediatamente. Devo ser um anormal. Começou novamente a dor no peito, fortíssima e com os mesmos sintomas. Chamei então o médico vastamente experiente, que relatou mais ou menos o seguinte, traduzindo a gagueira dele: “Agüenta aí, que eu estou apenas cobrindo o almoço do fulano, não sei o que posso te dar para essa dor”. Não, eu não estava em um hospital público, eu estava no melhor hospital de Porto Alegre. Mesmo nele existem imbecis. Pensei em uma frase de auto-ajuda para lhe dizer, “idiotas fazem coisas idiotas”, mas como a minha esposa estava junto, segurei a onda. Veio finalmente um médico decente e me disse que ninguém podia ter 100% de certeza de que eu havia tido um infarto, em função de que o tipo de exames a que eu havia sido submetido não eram conclusivos. Ele suspeitava de outra coisa que é chamada de miocardite, e que uma tomografia no coração avaliaria com boa precisão a situação das minhas artérias. Ele suspeitou disso quando leu a documentação a meu respeito, e nela consta que não tenho qualquer tipo de agravante facilitador do infarto (só o peso) e que nele consta (repeti os sintomas para quinhentas pessoas) uma gripe muito forte que eu havia contraído duas semanas antes, de tanto sair dos 18ºC do IDC para os 40ºC na parte de fora dele, no meu trabalho. A notícia ruim, é que mesmo uma miocardite não é moleza não, e que eu ficaria no mínimo todo o final de semana lá, e recém era quinta feira. Bateu o pavor. Se não havia infartado, então que me dessem uns analgésicos que eu queria voltar ao trabalho, coisa que o médico sequer se deu ao trabalho de discutir. Até a tomografia, que demoraria umas 48 horas, eu ia ser remanejado para a CTI geral do hospital. Fui, e lá me conectaram em um monte de equipamentos.

Vou continuar essa epopéia amanhã, pois está ficando longa….