Drakkar Noir

Mais de duas horas da manhã de uma terça feira e eu no serviço. Não curto falar dele, afinal, não me serve para nada além de ganhar a vida. Mesmo assim, mesmo não precisando, pois meu pessoal pode fazer a mesma coisa, aqui estou eu, configurando equipamentos de telecom que vão atender os servers no novo data center da empresa, conferindo se tudo está certinho, nos mínimos detalhes, para nada dar errado.Trabalhei ainda mais duro do que de costume nesse projeto. No fim das contas os méritos irão para a politicagem barata de sempre, os tapinhas nas costas de quem não fez nada… Bom, falei demais. Na realidade outra coisa, além disso, me prende aqui, o wallpaper com ela sorrindo bem aqui na minha frente, tanto faz se ela está sorrindo para alguém diferente de mim, segurando uma câmera e não ajustando direito o foco. Tanto faz também se achei essa foto no Orkut, afinal, essa ferramenta aparentemente inútil de gerenciamento da vida social fácil tem que servir para alguma pretensão. O simples sorriso dessa criatura já é suficiente para me imbecilizar ainda mais. A essa hora não tem mais os patrulheiros(as) ideológicos(as) aqui então posso detonar Life’s a Gas dos Ramones no repeat até sentir coceira no tímpano de tão alto o volume. Hoje estava lembrando da minha adolescência novamente meus dezessete ou dezoito anos, escola técnica, Grêmio Estudantil… Que época!Depois de alguns anos, finalmente íamos limpar o ranço político-partidário que tinha tomado conta daquela sala entre o SOE e a escada que dava para a Diretoria. Essa convicção durou bastante para mim, durou até o dia que o nosso Presidente Marcelo veio com a necessidade de recrutarmos mais pessoas para nossa causa pueril. Alguns dias depois disso estava eu entrando no Grêmio e então aconteceu, passei alguns instantes de susto, e mais alguns bolando o que eu ia dizer na frente dela. Costumava disfarçar meu jeito tímido com piadinhas ou sacadas engraçadas e fiz isso mesmo, descontraiu no primeiro momento, mas guardei dentro da minha cabeça o verdadeiro sentimento que tomou conta, e ele é tão forte que quase dezessete anos mais tarde ele me faz estar aqui digitando essa palhaçada. Passei um período totalmente diferente de toda a minha vida naquela época, hoje eu me lembro dele como se fosse outra vida, outra dimensão, outro sei-lá-o-que… Pintou então o famoso baile do Grêmio, e, é claro, eu tinha sentimentos e expectativas confusas em relação a ele, eu queria e não queria, ou tinha q ser perfeito ou nada, ficava em casa. Nessa época meu pai trabalhava em uma multinacional de cosméticos, era muito poderosa e ainda o é, não sei como, além de ganhar uma grana legal, ele ainda era agraciado com muitos vidros de Drakkar Noir, aquele perfume bacana do Guy Laroche, vidro estiloso e tal. Chegou o dia então e eu o passei inteirinho fazendo o que é a especialidade de todo adolescente: Nada, rigorosamente nada. Eu estava bem atrasado quando meu pai apareceu oferecendo três coisas que não eram exatamente a especialidade dele, uma carona, grana pra festa e um vidro do Drakkar. Pirei de felicidade com a patrocinada, mas mais ainda com a atitude dele. Coloquei o perfume e pensei “comigo mesmo”, “Vou matar a pau”. Passamos na casa de um colega-amigo antes de chegar na festa, buscamos ele e mais alguns colegas e fomos nos divertir, ou pelo menos eu achava que ia. Chegamos lá, todo mundo comentando, “olha só o cara, usando Drakkar, animal”… Bom, ruminava eu meu chiclete olhando pra todos os lados a cada 2 segundos, é claro, procurando por ela e de repente acho o que procurava, e melhor ainda, vinha em minha direção. Dei-me conta que o chiclete não ia ser bom e simplesmente o engoli para poder beijar aquele rosto. Ela foi dar oi para as pessoas que conhecia e fiquei lá estático pensando: “ Um agora ela cumprimenta todo mundo e vem para o meu lado, daí , bom, daí o quê? O que eu faço? Digo que quero casar com ela? Digo que tenho uma girafa de plástico em casa e monto aeromodelos alemães da segunda guerra?” Pensei tanto nisso que me perdi, me desconectei de tudo. Nunca havia bebido nada alcoólico, mas, coisas de um jumento, achei que seria uma boa idéia. Tomei um tal de Hi-fi, gostei, tomei outro, gostei, tomei outro… tomei muitos, até que perdi a noção um pouco do que era real e palpável. O pouco que me lembro foi de ter visto um dos produtores da festa num canto com ela. Foi o suficiente para eu voltar no balcão do barman e tomar outros Hi-fi e na seqüência tudo mais que ele tinha. As coisas saíram definitivamente do meu controle, não sei até hoje se foi bem isso que ocorreu mas me lembro dela tentando falar comigo no fim da festa e estava brava. Não lembro se ali ou depois, já na escola, me disseram que ela não foi na conversa do produtor barato, que ficou sozinha e assim foi para casa. Mas lembro que me perdi, fui parar de táxi ou de ônibus, também não lembro, bem longe da minha casa e quando me acordei, em uma escada de condomínio já pela manhã, minha cabeça doía muito e eu tinha um hálito péssimo. Tomei alguma condução e fui pra casa, chorando bem baixinho, não pela dor, pelo sentimento de fiasco, mas por ter magoado ela. Isso faz com que até hoje, mesmo passando longe do Drakkar Noir, eu lembre perfeitamente seu cheiro e tudo mais que eu passei sóbrio naquele dia. Em algum momento dos meus dias eu acho que se tiver um frasco daquela poção maldita o tempo vai voltar e vou ser feliz para todo o sempre. Infelizmente o único contato que eu tive há uns dois anos atrás com esse perfume me atordoou e eu decidi que nunca mais vou ter um, a não ser que eu tenha uma oportunidade de me redimir da minha babaquice, o que não vai acontecer pois somos pessoas de respeito. Por falar em perfume, muito, mas muito melhor o Fahrenheit do Christian Dior, esse eu tenho e uso sem receio de me lembrar de nada, a não ser que é bom.
De repente me deu vontade de ver de novo Edward Scissorhands, esse fim de semana vou fazer isso. E por hora, vou ouvir mais algumas vezes Life’s a Gas, tão curta, simples, trágica e direta quanto todas as músicas dos Ramones e talvez suas próprias vidas.

Anúncios

4 comentários sobre “Drakkar Noir

  1. É, meu amigo. Eu me lembro bem dessa história… Inclusive passei por ti no final da festa e te perguntei se tu estavas bem. Com tua resposta afirmativa e a garantia de que tu ias pegar um taxi me dei por satisfeito e fui pra casa.
    Se servir de consolo, eu:
    1) fui de blazer e gravata (nada a ver numa festa de estudantes pobres e secundaristas do Parobé);
    2) gastei toda a grana que eu tinha (como foi bebendo, é até perdoável);
    3) apesar da minha superprodução de superexecutivo superfatal não fiquei com NINGUÉM e sequer arrumei um contato, um telefone, uma prospect, nada (só pra variar). aliás eu aprendi naquela época a como estar no meio de um monte de mulheres sem comer nenhuma;
    4) o único elogio que eu me lembro ter recebido partiu de uma professora de educação física cinqüentona e que se achava a tal (ecaaa!!!)

  2. A adolescência é realmente uma fase complicada. Muito mais o processo de aproximação com o sexo oposto durante ela. Seu eu pudesse aproveitar agora todas as chances que eu desperdicei quando era adolescente, não precisaria de um blog anônimo hoje. Não foram poucas as oportunidades, mas acabei perdendo quase todas por W.O.

  3. Realmente não me lembro dessa história, aliás, não lembro nem o que eu comi ontem(se é que comi…), mas acho que a adolescência é a fase que nós mesmos achamos que fazemos tudo errado…na verdade talvez estejamos errando muito mais hoje em dia, o problema é que agora não prestamos atenção…Vida bandida essa…rsrs

  4. É amigo, eu deveria ter ficado mais atento a você naquela noite.
    Eu sabia que havia algo diferente já há algum tempo. Você sempre usava aquela gandola suja e malcheirosa do exército e um par de cuturnos furados, pelo menos pareciam furados. Depois de algum tempo você passou a se arrumar mais e até a cheirar bem. E, incrível, você inventava frases e versos de amor totalmente piegas, escrevia nos cadernos e tal.
    Não se lamente por isso, não há por que. Era um sentimento talvez tão pueril quanto nosso sonho do Grêmio. E que sonhos. Eu também sinto falta daquele tempo, ou melhor, de uma causa. Algo justo e honesto para defender. Mas continuo sendo dono do meu destino e tendo coragem de ousar, me atirar, ainda que quebre a cara, não me permito não tentar.
    Obrigado por guardar estas lembranças, é bom ver que foi significativo, importante. Ainda que não tenha sido totalmente bom.
    Um abraço forte.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s